domingo, 30 de março de 2008

AO DEUS DO VINHO.

AO DEUS DO VINHO.

Prezado amigo Baco;

Sob a sua influência malévola, venho relatar-lhe minha mais recente desventura.
Como você sabe, inebriante amigo, há quase setenta dias que eu a beijei pela última vez e há trinta que não consigo falar com ela.
Há momentos em que, extasiado por estímulos alcoólicos, ainda posso sentir o gosto daquela boca e o cheiro daquele corpo. Porém, tudo é passageiro.
Se você acha que estou propenso a evitá-la, está totalmente correto. Mas não é apenas isso, tenho evitado tudo o que me lembre dela; Músicas, lugares, cheiros, gostos, sons e amigos em comum. O mais difícil, meu vil amigo, é evitar os amigos.
O bom senso me diz que devo estar sempre visitando os amigos e eu gosto muito deles, por isso, esporadicamente, eu o faço.
A única coisa que me incomoda, é quando estes amigos me perguntam se eu a esqueci. Instintivamente, eu respondo que sim e explico: Todos os dias eu acordo e me proponho a esquecê-la. Porém, o que eu sinto por ela é tão grande que não cabe mais em mim. Então, passados cinco minutos, eu torno a lembrá-la e o sentimento retorna mais forte do que antes.
É, velho amigo, se me pareço um tolo, tenha a certeza que é assim que me sinto. Olho-me no espelho e vejo uma leve sombra do que já fui.
Me sinto como Narciso, que se encantou por um “amor” ilusório e lapidal. Espelho-me em Heracles, condenado a suportar, em suas costas, o peso do mundo por toda eternidade.
Embriago-me para tentar controlar esta paixão. Queria poder mudar minhas reações e voltar a ser o que eu era. Gosto dela... É sentimento que eu não escolhi. Eu não quis isso para minha vida, mas aconteceu ! Foi um momento, de minha vida, que marcou um ponto de transição; De repente, eu descobri que poderia viver (mesmo que brevemente) um amor muito maior do que qualquer outro já vivido. Também, descobri que, por mais que tente, não consigo controlar o meu destino.
Alcoólico amigo, há uma frase que diz o seguinte : “Dá-me solamente aquilo que te sobra”. (Acredito que não precise traduzir.) E que, inconscientemente, tornei meu lema. Pode me chamar de capacho. Eu assumo minhas falhas... sempre.
Se eu pudesse fazer um pedido, pediria para voltar ao momento em que a beijei pela primeira vez, não para mudar o fiz, mas para poder reviver aquele breve momento de intensa paixão, de carinho supremo, de felicidade e ternura infinita. Gostaria de sentir, novamente, o calor daqueles lábios e o gosto daquela boca jovem e sensual. Sentir, outra vez, o abraço daquele corpo tenro e branco. E rever aquele doce olhar de menina... de mulher.
E, grande amigo, dizem que não há dor que o tempo não cure. Pois me dê a chave da “Caixa de Pandora” e permita que eu destrua a ampulheta universal que comanda nossas vidas.
Acredito que a culpa disso tudo seja, única e exclusivamente, minha. Afinal, eu não consegui ser bom o bastante para poder ter uma mulher, como ela, ao meu lado, ou para cativar os seus sentimentos.
Sei, hoje, que já não sou mais merecedor da atenção da minha amada. Não tenho direito de exigir nada... de ninguém.
Gostaria muito de falar com ela, novamente. Ouvir sua voz. Ver seus lindos olhos, de perto, outra vez. Sentir seu cheiro, sua respiração e seu calor. Porém, capcioso amigo, não me fiz digno o bastante para isso.
Só me resta, agora, a sua companhia, tosco amigo, em momentos de alucinada lucidez.
Obrigado por sua paciência e compreensão.
Amistosamente;

Água Corrente.
* 1992.

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