domingo, 30 de março de 2008

BEIRA MAR.

BEIRA MAR.

É quase verão e, mais uma vez, meu coração, este moleque travesso, se confunde, se atrapalha e se desmancha frente à duas musas da Grécia Antiga. Deusas de terras e tempos distantes. Ninfas míticas.
A primeira, mais madura, bela, aparentemente carente. Vivendo das glórias passadas.
A Segunda, jovem em demasia, de uma cabeça não apenas linda, mas admirável e de grandes méritos.
Ambas de atrativos diversos e distintos, mas de mesmo sangue divinal. Sereias nos meus mares de sonhos, estrelas no céu de minh’alma. Flor e espinho. Faces de uma mesma moeda.
Nas ruínas do passado, onde está meu coração, residem seus nomes, fragmentados pelo tempo, mas ainda vivos na memória deste devoto sonhador : Bernadeth e Margareth.

1990.

AFLIÇÃO.

AFLIÇÃO.

E lá vou eu, novamente, em minha busca, infindável, de inspiração para meus escritos. Gostaria de poder transformar cada pensamento, meu, em palavras e não encontrar limitações para meus devaneios.
Quem me dera poder descrever, só com palavras, o sorriso de uma adolescente e o olhar de uma jovem apaixonada. Transformar em versos o riso de uma criança e o suspiro de prazer da mulher madura. Fazer rimas com beijos, lágrimas e queijos.
Porém, escrever não é uma questão de querer, mas sim de poder.
Nem sempre se está em condições para isso. É necessário que a inspiração seja uma constante em cada momento vivido. É necessário ter a musa certa e a paixão insana. É preciso se entregar à poesia e deixá-la fluir pelas veias.
1990.

CARTA À VOCÊ.



CARTA À VOCÊ.

Gostaria de andar pelas ruas e sorrir para quem passasse, saudar meus amigos, piscar para as garotas, cantar com os pássaros e sonhar como as crianças. Gostaria de voltar meus olhos para trás e rever a estrada que há muito venho percorrendo, ver aqueles que não vejo mais, ver os amores passados e os sofrimentos vencidos. Mas acima de tudo, desejaria estar com você, na rua, na escola, no campo e em todo lugar. Queria beijá-la, tocar seus cabelos, apertá-la em meu peito e, tão somente, tê-la como companheira.
Quem sabe, um dia, isso aconteça, talvez eu mereça, talvez não. Mas se nada disso vier a acontecer, mesmo que eu permaneça na situação que me encontro, valeria a pena passar por tudo que passo.
“Valer-me-ia o simples fato de querê-la bem.”
“Não sei o quanto meus sentimentos são sóbrios e nem a sua longevidade, mas creio que eles existem graças à sua presença ‘silenciosa’ maculando meu Ego.”
Perdoe-me se minha mão e meu ‘Cinzel a tinta’ dizem mais que meus lábios.
Perdoe-me se minha coragem é pouca e me impede de assumir esta paixão.
Perdoe-me por existir.
Abril de 1990.

DOMINADO.

DOMINADO.

Toda paixão é infinitamente boa quando a dominamos e extremamente má quando nos domina.

* Abril de 1990.

UM SONHO DE FAMÍLIA.

UM SONHO DE FAMÍLIA.

Penetrei no mundo dos sonhos para poder escrever algo além da minha paixão refreada, encontrei um menino que me convidou a passear. Ele era moreninho, de olhos castanhos e de cabelos negros. Me lembrava alguém.
Começamos o nosso passeio em 1973, no dia 22 de novembro, às 16 horas. Estávamos em São Paulo, na maternidade de um hospital no bairro do Cambuci. Eu me vi nascer. Eu não sabia que havia sido tão chorão e chorei com o meu pequeno “eu”.
Seguimos nossa viagem em direção ao ano de 1977. Era o dia 22 de setembro. Vi meus pais chorando, era a alegria do nascimento da pequena Patrícia. Porém, esta alegria duro pouco e sete dias depois a pequena Patrícia Márcia dos Reis, veio a falecer. Novamente, vi minha família chorar e chorei com eles.
Continuamos nossa viagem em 1978. No dia 08 de outubro, uma nova criança nasce. Após tanto tempo de tristeza, a redonda Janaina, trouxe a alegria de volta à nossa casa e de emoção eu chorei.
Entramos em 1979 já ouvindo choros. Eram berros desesperados da pequena Janaina, que tinha seu braço em chamas, e os resmungos do pequeno “eu”, querendo dormir, enquanto todos tentavam acalmar o bebê. Chorei ao ver tamanho sofrimento.
Com todos esses acontecimentos revividos, o menino parecia invariável, só o vi chorar quando chegamos à 1990. Nós me vimos cabisbaixo, quieto, triste e voador. Me vimos delirar por alguém que parecia morar em um mundo totalmente ao inverso do meu e que estava tão próxima e tão inalcansável.
Observamos o dia em que tentei tocar seus cabelos e, como bom palhaço, derrubei meu material escolar e não consegui. O menino riu e depois voltou a emburrar-se.
Então, resolvi perguntar-lhe o nome e, categoricamente, ele me respondeu :
- BETO.
Neste momento, despertei.

Agosto de 1990.

FESTA DE QUINZE ANOS.

FESTA DE QUINZE ANOS.

Acho que já tinha idade suficiente para notar a intensa movimentação em minha casa; gente pra todo lado, garrafas entrando, batatas se precipitando nas panelas, farinha voando para um lado, ovos para o outro e gente que não acabava mais. Enquanto isso eu só esperava por ela. Não conseguia parar de pensar em como ela viria; “Será que ela viria a pé, a cavalo, de táxi? Talvez nem viesse... Não, ela teria de vir, pois há tempos que a venho convidando.”
Enquanto esperava, vi que um bolo se colocava sobre a mesa da copa e, sobre ele, duas velas folgadas se deitaram para descansar antes do trabalho. A primeira vela era magra como um palito e tinha um nariz como de tucano. A segunda era muito esquisita, tinha um penteado meio estranho, o cabelo era todo jogado para trás, o pescoço era longo e tinha um grande traseiro. E eu a esperava impaciente.
Chegou a hora há muito esperada, a porta da casa se esquivava para que pessoa alguma, nela colidisse e todos que entravam faziam questão de pegar em minhas mãos. E ela nada de chegar.
Alguém colocou umas músicas e eu esperava.
De repente, as lâmpadas e o aparelho de som resolveram fazer greve e as pessoas começaram a cantar e a atirar, rapidamente, uma mão contra a outra. E ela não chegava.
Alguns convidados me acharam com cara de carregador ou garoto de entregas e depositaram, sobre meus braços, pacotes de diversos tamanhos e formas e ela... nada.
Já estava cansado de esperar, quando houve uma evacuação total de minha casa. Eu pensei : “Será que eu fiz o que não devia?” Coloquei meu olfato para funcionar : “Não, eu não fiz.”
Então fui para o meu quarto sem saber o que fazer. Pensei em dormir, mas os pacotes já estavam acomodados na ama. Me virei para o espelho... e qual não foi a minha surpresa ao reparar alguns pelotinhos em meu rosto e bem abaixo da boca, um fiozinho negro. Então descobri que ela havia, finalmente, chegado : “A Juventude havia chegado e eu nem havia notado.”

Obs. : Crônica premiada com o 2º lugar – Concurso de Crônicas e Poesias em Comemoração aos 92 Anos de Fundação do Seminário Redentorista Santo Afonso de Aparecida – SP – Na Categoria CRÔNICA.
Agosto de 1990.

A OUTRA... A MESMA.

A OUTRA... A MESMA.

Aguardar o tempo, o melhor momento, para fazer visível, aquilo que povoa minha mente, aquilo que implode meu desejo.
Esperar que seus olhos, outrora voltados para o poente, vejam o nascente brilho de meus olhos.
Sonhar com o momento em que a coragem, que se encontra sepultada na desilusão, reviva em meu caricato ser.
Queria que a lágrima, rolada enquanto escrevia, viesse à lavar a minha alma. Retirando dela a macula, eterna, do desejo freqüente de te beijar.
Queria que o suspiro, sufocado pela traição, ecoasse pelas ruas e batesse em seu coração.
Queria ver meu verso, transformado em realidade, navegando pelas ondas do mar da felicidade.
Agosto de 1990.